sábado, 8 de março de 2014

Educação Escolar de Pessoas com Surdez
Atendimento Educacional Especializado em Construção

Mirlene Ferreira Macedo Damázio
Josimário de Paula Ferreira

No que se refere à educação de pessoas com surdez é possível observar, num contexto histórico, que há um embate político e epistemológico, que tendem a desvalorizar a pessoa com surdez, ignorando suas potencialidades, sujeitando-as a uma condição inferior aos ouvintes, centrando o problema da educação apenas na língua, esquecendo-se de reavaliar as práticas pedagógicas adotadas. A nova Política de Educação no Brasil vem tecendo fios direcionais que possibilitam superar uma visão centrada de homem, sociedade, cultura e linguagem de forma fragmentária, que se consolidará numa perspectiva de inclusão de todos, com especial destaque para as pessoas com deficiências. Nesse ponto, uma nova política de Educação Especial tem se tornado promissora no ambiente escolar e nas práticas sociais/institucionais, principalmente para as pessoas com surdez. Faz-se necessário romper com esse paradigma instituído desde os primórdios, em que a pessoa com surdez é tratada como deficiente e dessa maneira, como pessoa que precisa de tratamento, pois como afirma Damázio e Ferreira: “não vemos a pessoa com surdez como deficiente, pois ela não o é, mas tem perda sensorial auditiva, ou seja, possui surdez, o que a limita biologicamente para essa função perceptiva”, assim, deve-se conceber a pessoa com surdez como ser biopsicosocial cognitivo, cultural, não somente na constituição de sua subjetividade, mas também na forma de aquisição e produção de conhecimentos. Pensar e construir uma prática pedagógica que se volte para o desenvolvimento das potencialidades das pessoas com surdez, na escola, é fazer com que essa instituição esteja imersa nesse emaranhado de redes sociais, culturais e de saberes. Não se pode atribuir à aquisição ou não de uma língua, o fracasso escolar das pessoas com surdez, pois se essa lógica e pensamento fossem verdade, nenhuma criança ouvinte teria algum problema ou dificuldade na aprendizagem; mas sim, devem-se analisar também as práticas pedagógicas utilizadas na escola e pelo docente, como citam os autores nesta afirmação de PIERUCCI (1999): “esse ser humano precisa ser trabalhado no espaço escolar como um ser que possui uma deficiência, e que essa deficiência provoca uma diferença e limitações, que essa diferença e tais limitações devem ser reconhecidas e respeitadas, mas não podemos justificar o fracasso nessa questão, em virtude de cairmos na cilada da diferença.”
Neste contexto de compreensão é que legitimamos a construção do Atendimento Educacional Especializado para pessoa com surdez, numa perspectiva inclusiva, que estabelece como ponto de partida a compreensão e o reconhecimento do potencial e das capacidades desse ser humano, vislumbrando o seu pleno desenvolvimento e aprendizagem. O direito de educação bilíngue para pessoa com surdez suscita uma reavaliação do processo onde o AEE se apresenta como uma ponte que se conecta entre a teoria e a prática, em uma reconstrução do saber e fazer pedagógico, adotando para tanto, o que o autor chama de Pedagogia Contextual Relacional, onde as experiências e vivências do indivíduo ganham valor e se relacionam com a aprendizagem, desenvolvendo-se todas as habilidades possíveis, onde “nesse contexto o aluno com surdez se sentirá situado e compreenderá com mais facilidades os conteúdos em estudo” (DAMÁZIO E FERREIRA). Para o desenvolvimento de um bom AEE PS, onde os obstáculos e entraves existentes não se façam presentes, Damázio sugere o desenvolvimento de três momentos didático-pedagógicos: AEE em Libras, onde todos os conhecimentos dos diferentes conteúdos curriculares são explicados nessa língua por um professor, preferencialmente surdo.  AEE para o Ensino da Língua Portuguesa, no qual são trabalhadas as especificidades dessa língua para pessoas com surdez, é realizado por uma professora de Língua Portuguesa, preferencialmente graduada nesta área. AEE para o ensino de Libras, em que os alunos com surdez terão aulas de Libras, favorecendo o conhecimento e a aquisição, principalmente de termos científicos. Este trabalho é realizado pelo professor e/ou instrutor de Libras, preferencialmente surdo, de acordo com o estágio de desenvolvimento da Língua de Sinais em que o aluno se encontra. É preciso compreender a escola como espaço do saber, da promoção das habilidades, da inclusão efetiva, do respeito às diferenças e do conhecimento do novo.

Referência Bibliográfica

Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção, p. 46-57.

Nenhum comentário:

Postar um comentário